The Wild World of Hasil "Haze" Adkins é o nome do documentário sobre a vida de Hasil Adkins. Adkins é uma daquelas preciosidades do rock and roll esquecidas no meio do caminho. Mas vou ficando por aqui, leiam o texto de Abonico seguido de uma entrevista com Marco, do finado Butchers Orchestra, publicado há uns anos atrás no site Mondo Bacana (http://www.mondobacana.com/) e saibam um pouco mais sobre essa lenda feita de fúria e rockabilly.
Carne, café e espírito selvagem Hasil “The Haze” Adkins viveu até o dia 28 de abril em um trailer ao lado da mesma casa que nasceu e nunca abriu mão de tocar uma música apaixonada, agressiva e verdadeira. A causa de sua morte permanece desconhecida, mas ele deixou órfãos grupos como os Cramps, Demolition Doll Rods e Jon Spencer Blues Explosion. George Araújo desvenda o universo demente e fascinante deste intrigante senhor que mal sabia a sua idade.
Adkins compunha desde a década de 50 mas gravou poucos discos.
A história é velha e todos já devem ter conhecido alguém na mesma situação: perdido em um quarto ou em um interior qualquer dos quintos dos infernos, está simplesmente uma pessoa genial e sem instrução alguma fazendo coisas inimagináveis a partir do nada. Essa pessoa improvisa, contorce e distorce o senso comum justamente por voltar ao básico da maneira mais boba possível. É aí que reside a sua genialidade.
Hasil Adkins foi essa pessoa. Nascido e criado nas colinas americanas de Madison, West Virginia, este senhor que mal sabia a própria idade [afirmava ter 67 anos, aproximadamente], condenou todas as almas que escutaram sua música à inquietação eterna. Compondo desde a década de 1950, sabia de cor mais de nove mil canções [apenas 25% eram covers!] e executava todas elas com fúria e paixão nunca vista antes no pretensioso showbiz americano.
Enquanto caçava galinhas e animais silvestres, Hasil se divertia em inventar as mais absurdas histórias envolvendo sexo, decapitação, danças esquisitas e órgãos governamentais. Todas essas histórias aliadas aos hormônios em fúria e rock’n’roll clássico transformaram-no em uma nervosa banda-de-um-homem-só – ele cantava, tocava violão, gaita e bateria simultaneamente.
Adkins traduziu sua realidade em música. Gemia e assobiava e rosnava até para quem não quisesse ouvir. Ele aparentemente não vivenciava as coisas com uma pessoa comum e conseguia partir da mais descabida alegria para um imenso mar azul e triste – isso gritava dentro dele. Seu grito foi tão forte que causou a metamorfose do manso rockabilly em um peçonhento e ultradivertido psychobilly, mas para isso foi necessário um tempo.
Foram quase duas décadas desde o lançamento de “My Baby Loves Me”, seu primeiro single, para conseguir algum reconhecimento. Nem mesmo Richard Nixon, presidente americano na época, escapou de receber algumas fitas. A obscuridade total durou até os Cramps gravarem uma versão para “She Said”. Essa música catapultou o adulto Hasil à condição de cult e fez com que um single feito em 1964 fosse confundido como uma produção do início dos anos 80. Na velha casa da colina, porém, nada mudou e Adkins ficava alheio ao que se passava. Foi preciso que dois fãs criassem um selo para gravar seu primeiro álbum.
Nasce um selvagem The Wild Man foi gravado em 1984 e lançado dois anos depois pela Norton Records. O álbum traz baladas sangrentas como “Turn Off a Memory” e nervos expostos do naipe de “Chicken Flop”. Provavelmente o maior problema desse disco para o grande público era a execução das músicas. Levando-se em consideração que sua carreira até então tinha sido marcada por singles mal gravados [além de viciado em café, vodca e carne crua, Hasil Adkins tinha o péssimo hábito de não cuidar de seus registros originais], comercialmente ele fora um fracasso. Mas a pedra-fundamental havia sido lançada. Partindo deste ponto, Billy Miller e Mirian Linna [primeira baterista dos Cramps e co-fundadora da Norton] selecionaram diversas músicas compostas pelo Selvagem entre 1961 e 1976 para transformar em bolachas.
Então a história mostrou mais uma vez que é cíclica. Tal qual um certo Velvet Underground, poucos compraram os discos de Hasil, mas todos que o fizeram montaram uma banda. Daí para frente, as coisas foram acontecendo de tal maneira que ele abriu um show do Public Image Limited em Nova York, ainda em 1986. Os dados sobre sua discografia divergem, mas são creditados a ele 15 álbuns, 23 singles e dois EPs.
Sua selvageria e tristeza singraram os mares e invadiram corpos de jovens espalhados por todo o globo. Na Europa, pessoas que figuram o selo übercool Voodoo Rhythm realizaram um festival apenas com bandas-de-um-integrante-só. Tal festival contou com a presença do próprio Hasil Adkins mais Margaret Doll Rod, Rev. Beatman e DM Bob, entre outros.
Açougueiro solitário Aqui no Brasil, encontramos no paulista Marco Butcher [frontman do Thee Butchers Orchestra], que tocou no festival citado acima] as sementes da música selvagem plantada por Hasil, o homem-selvagem. Marco lançará no segundo semestre um disco como one-man-band, chamado Skull Santa In All About Girls. Segue abaixo uma pequena entrevista com o açougueiro, sobre a condição de músico solitário.
Você lembra ou imagina o que passou pela sua cabeça na hora que ouviu pela primeira vez uma música do falecido Hasil? E como foi tocar nesse festival em que ele participou? Bom, ganhei um disco dele de presente do Danny Doll Rod, que sempre foi muito fã dele. Me lembro de ter achado tudo aquilo muito primitivo e cru, assim como a maioria das coisas que sempre achei legal ouvir. Afinal, a música feita por ele sempre foi supersimples e bem calcada no blues. Tocar nesse festival foi bem legal. Primeiro porque tive a chance de ver muita gente boa tocando ao vivo, depois porque é uma forma de manter a tradição do blues viva e mostrar que a musica blues não é aquela coisa chata feita por BB King ou outros que se deixaram urbanizar e perderam seu link com o primal.
Hasil Adkins teve efetivamente alguma influência na sua performance de palco ou mesmo nas composições?Não saberia dizer se tive ou não, de forma direta, alguma influência de Adkins em minha música. Acho que isso acabou acontecendo de uma forma mais ligada à atitude de estar no palco totalmente só. Ou seja, sem uma banda.
O que lhe motivou a se "tornar" uma banda-de-um-homem-só?Acho que o principal motivo é a possibilidade de estar fazendo free music. Self-expression fulltime, entende? Digo, sem uma forma ou uma ordem. Às vezes mudo a música e os refrões no ultimo segundo, de acordo com meu humor. Isso traz para minha música uma liberdade única.
Você disse em outro momento que era uma questão de atitude. Que atitude seria essa? Bom, quando falo de atitude, eu me refiro ao lance de estar só em cima do palco. A maioria das pessoas fica em casa reclamando que não consegue montar a banda perfeita ou que ainda não encontrou aquele baixista. Eu não espero ninguém. Se tenho algo a dizer, digo. E isso é que faz o lance de ser uma one-man band. Você não depende da vontade dos outros de estar em uma banda. Acho que isso, sim, seria a coisa mais punk, saca? Tipo, você fazendo seu lance e dando a cara para bater. Sem desculpas, sem maquiagem, sem tecnologia. Só você, sua guitarra, seu bumbo e Deus: o espírito do gospel yeah yeah sound.
Como se sente em gravar um disco com essa proposta mais intimista sabendo que o Brasil não tem essa cultura de respeitar a música pela música? Não acho que meu disco seja mais intimista do que qualquer outro que já gravei com os Butchers. Afinal, não se trata de um disco acústico, nem nada. Ele é supersujo e barulhento como os outros. Só que todo esse poder é provido por uma pessoa só e isso faz a diferença. É claro que o fato de eu estar mais voltado para o swamp blues traz climas mais escuros pra minha música, mas não chega a ser mais intimista. Todo o swing e soul necessários para um bom boogie são encontrados nesse disco. [GA]
"Listening to the 101 tracks on "Bones," it's easy to see why rockabilly continues to attract a lively cult following." Los Angeles Times
"A celebration of sex, rebels, and rock 'n' roll..." Rhino Records
Dando prosseguimento a nossa saga punk através das décadas temos Rockin' Bones: 1950s Punk and Rockabilly, uma caixa com 4 cds lançada em 2006 pela Rhino, num total de 101 faixas gravadas entre 1954 -1969, por artistas conhecidos outros nem tanto, lançados por selos pequenos e grandes. Aqui você encontra desde o ícone pop Elvis ao selvagem Hasil Adkins. Aqui vai para Download o primeiro cd da caixa. Rock on!
track list
Disc: 1 1. Rockin' Bones - Ronnie Dawson 2. Let's Go Baby - Billy Eldridge 3. Baby Let's Play House - Elvis Presley 4. Little Girl - John & Jackie 5. Cat Man - Gene Vincent 6. Lobo Jones - Jackie Gotroe 7. Juvenile Delinquent - Ronnie Allen 8. Froggy Went A Courting - Danny Dell 9. Rattlesnake Daddy - Joe D. Johnson 10. Down On The Farm - Al Downing 11. Rockin' In The Graveyard - Jackie Morningstar 12. Dancing Doll - Art Adams 13. Long Blond Hair, Red Rose Lips - Johnny Powers 14. Action Packed - Johnny Dollar 15. Boppin' High School Baby - Don Willis 16. Believe What You Say - Ricky Nelson 17. Sunglasses After Dark - Dwight Pullen 18. Rumble - Link Wray 19. Down The Line - Buddy Holly 20. Pink Cadillac - Larry Dowd 21. Black Cadillac - Joyce Green 22. Who's Been Here - Commonwealth Jones 23. I Need A Man - Barbara Pittman 24. Please Give Me Something - Bill Allen 25. Sinners - Freddie And The Hitch-Hikers
Stud Cole é mais um tesouro que foi resgatado do esquecimento. A Norton Records trouxe para a era digital em 2002 o disco promocional de Cole que em 1968 teve apenas 100 cópias (!) prensadas. A edição em Cd da Norton reuni seu Lp promo mais bônus. Seu som é geralmente descrito como se Elvis tocasse com os Yardbyrds de 1966 ou então como um Esquerita branco, no mais essas são apenas descrições para RnR cru, permeado por rockabilly, garage e blues. As informações sobre Stud Cole são escassas, sabe-se que seu nome verdadeiro era Patrick Tirone e trocou a cidade de Buffalo, no estado de NY, pela ensolarada Califórnia. Permaneceu dez anos na cena californiana, mas sem sucesso. A história de Stud não é diferente da de excelentes artistas que não obtiveram qualquer tipo de êxito, fama ou reconhecimento em sua época, mas que são portadores de música sincera e intensa, o que são qualidades do bom rock feito em qualquer época. A canção Burn Baby Burn é sensacional, pra não dizer foda, lá está tudo, guitarra estridente com um vocal desesperado e raivoso e uma introdução arrasadora (de doer lá na alma) que lhe levam a um blues punk sedutor e cheio de clima. Se você curte Cramps ou rockers punks malditos da estipe de Hasil Adkins ou Dean Carter, Stud Cole é o caminho!
Ouça online Stude Cole - Burn Baby Burn
tracklist
1. Burn Baby Burn 2. Always & Always 3. Feels Good 4. Don't Do That 5. Hard Luck Games 6. The Devil's Comin' 7. Stop The Wedding 8. Oh? I Love You 9. Waitin' Time Blues 10. Black Sun 11. My Baby's Comin' 12. The Witch 13. I Don't Want To Go 14. I'm Glad 15. It Ain't Right 16. Tirone Real Estate Radio Ad
O Chamado do Selvagem - O elo perdido entre o rockabilly e o garage rock
Dê uma sacada na capa ai de cima, parece um rockabilly rocker dos anos 50, não? Mas as aparências enganam, Dean Carter é uma espécie de anomalia sonora gerada nos anos 60. O elo perdido entre o rockabilly dos anos 50 e o garage punk dos anos 60!!! Tente imaginar o cruzamento de um Elvis raivoso com a fúria garageira de um The Sonics ou ainda um Gene Vincent sendo acompanhado pelo The Seeds num restaurante de beira de estrada ou Eddie Cochran e Music Machine jogando sinuca (bilhar) numa taberna com luz verde fraca e talvez você possa imaginar o som de Dean Carter.
Vindo de Champaign, Illinois, Dean Carter começou a gravar demos em 1959 (inclusas nesse cd) que viriam a marcar seu som peculiar, parte rockabilly, parte garage punk dos mais devastadores. Aqui não há espaços para firulas psicodélicas, é rock bruto, fuzz barulhento e esquisito, riffs rockabilly com atmosfera sessentista, é isso ou quase isso. O obscuro Dean Carter teve toda sua obra resgatada em 2004 pela Ace Records através de seu selo Big Beat, que possui em seu catálogo reedições do The Sonics, Zombies e até Big Star. Músicas de Dean Carter antes só podiam ser conferidas na coletânea Pebbles Vol. 6: Chicago Part 1, do qual fazem parte Jailhouse Rock e Rebel Woman. Em Call of The Wild temos tudo o que Dean produziu entre 1959-1969.
Jailhouse Rock é a canção síntese de Dean Carter, uma releitura desse clássico com um começo devastador, vocal rocker, fuzz ao fundo e uma menina insana de 12 anos (!!!) tocando um clarinete pertubador! É punk do começo ao fim.
Ouça online Dean Carter - Jailhouse Rock
Tracklist
1. Jailhouse Rock 2. Mary Sue 3. I Got A Girl 4. Rebel Woman 5. Call Of The Wild 6. Sizzlin Hot 7. Loves A Workin 8. Dont Try To Change Me 9. Fever 10. Im Leavin 11. Dr Feelgood 12. You Tear Me Up 13. Run Rabbit Run 14. Midnight Sun 15. Sugaree 16. Black Boots 17. Love Eyes 18. Dobro Pickin Man 19. The Lucky Man 20. The Lucky One 21. Shadow Of Evil 22. Boppin The Bug 23. Hannah Hannah 24. Cry Blue 25. Good Side Of My Mind 26. Forty Days 27. School Work 28. Would You Believe