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sexta-feira, 6 de abril de 2012

Tristessa - Jack Kerouac



Santa Tristessa

Tristessa é uma narrativa urbana e poética em primeira pessoa acerca da paixão semi declarada do escritor Jack pela prostituta Tristessa e estruturada no ritmo das idas e vindas dos dois em busca de drogas e amor. Pode não ser uma história de amor, mas é com certeza uma história sobre amor. 

A trama se passa na Cidade do México dos anos 1950, mais precisamente em sua periferia e bocas de fumo, nos bairros populares precários sem saneamento habitados pela classe trabalhadora, mas também pelo lumpemproletariado, prostitutas e vagabundos. Tristessa, assim como outros livros de Kerouac é baseado na vida do autor mesclando elementos biográficos e ficcionais. A novela possui cinco personagens, as prostitutas Cruz e Tristessa, os viciados El índio e Old Bull e o narrador, o próprio Jack. Se livros como On The Road ou Dharma Bums são ambientadas em estradas, ferrovias e montanhas, a novela poética Tristessa se passa, na maior parte do tempo, em sujos ambientes de quatro paredes habitados por viciados em busca de uma dose. Toda a novela é impregnada por um clima junk de chapação, drogas, alcoolismo, embriaguez, desorientação mental, enjoo e vomito, numa narrativa frenética marcada por espanholismos e uma construção literária entre a prosa e a poesia que em certos trechos lhe fazem lembrar o poema Uivo de Allen Gisnberg.

Nesta novela estão presentes os elementos costumeiros da escrita de Kerouac como o cristianismo e sua aproximação com o budismo, a junção entre profano e sagrado representado por Tristessa, uma prostituta viciada católica praticante, diálogos semifilosóficos e semirreligiosos que desembocam na criação de alguma máxima zen budista do tipo “nascidos para morrer”, a presença de amigos pessoais do autor como personagens semibiográficos, neste caso William Burroughs como Old Bull. Tudo isso embalado por citações de músicas de Frank Sinatra.

Como dito no início do texto, essa pode não ser uma história de amor clássica, mas é uma história sobre amor, um amor de nossos tempos, um amor forte por uma figura frágil como Tristessa que você deve ter cuidado para não cortar os dedos ao tentar agarrá-la e quebrá-la como um copo sujo de uísque barato.

Lixo Jovem, 2012

quarta-feira, 7 de março de 2012

Jazz, doom jazz, ukulele e hooligans



Comecemos pelo ukulele. Essa é uma versão do clássico Rocksteady de Alton Ellis na bela voz dessa menina que posta vídeos no youtbe cantando e tocando ukulele. Poucas informações sobre ela na web, parece que atualmente atende pelo nome de Scampi.


Nesse vídeo o baterista be bop Max Roach apavora com suas mãos nervosas. Não se pode deixar de notar a poderosa e linda voz de Abbey Lincoln.


Isso aqui se chama doom jazz. Dale Cooper Quartet and the Dictaphones é uma mistura de ambient, jazz, eletrônica, trilhas sonoras, post e prog rock com aquelas "sensações de vazio" e desolação de tudo que acompanha a palavra doom. Não é o tipo de banda que você paga pra ver um show. É melhor escutar em casa sentado.


Entre os Vândalos - Se você gostou de Green Street Hooligans esse é o livro que você deve ler.

Trecho


Na esperança de evitar confusão, acomodei-me num assento de primeira classe, na parte mais dianteira de um vagão, defronte a um homem que havia pago por seu bilhete de primeira classe. Ele era esbelto e elegante, com um bigode fino, usava um terno de lã e sapatos lustrosos e caros: um tipo civilizado de camarada lendo um tipo civilizado de livro — um romance de capa dura com sobrecapa. um torcedor o estava fitando havia um bom tempo. Um torcedor que estava embriagado vez por outra acendia um fósforo e atirava-o em direção aos reluzentes sapatos do homem civilizado, na esperança de atear-lhe fogo às calças. O homem civilizado ignorava-o, porém o torcedor, bufando irritado, persistia. Era uma imagem eloquente: um dos desprivilegiados, ignorando os códigos de conduta civilizados, pondo em chamas, displicentemente, um membro da classe mais privilegiada.

segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Em busca de si mesmo na América profunda




Vagabundos iluminados é mais um "livro de estrada" uma "road novel" de Kerouac, assim como On the road e Viajante solitário. O livro possui um enredo relativamente simples com poucos personagens. Alguns dizem que ele é um On the road zen budista, mais espirituoso, mais iluminado. Ele é em si mais religioso, com tentativas de conciliação entre Oriente e Ocidente, numa aproximação entre budismo e cristianismo. 

A novela foi lançada um ano depois do sucesso de On the road e mostra as andanças dos jovens universitários Ray Smith e Japh Rider vestidos com roupas baratas vendidas pelo Exército da Salvação, alimentados por boas refeições de vinte centavos em restaurantes de beira de estrada numa busca espiritual por trilhas em montanhas, rodovias e ferrovias estadunidenses, com um monte de andarilhos e demais vagabundos pelo caminho. Tudo isso embalado por conversas sobre zen budismo, o vazio, alpinismo, a verdade e a poesia. O livro possui várias descrições de paisagens e da natureza, o que as vezes o torna cansativo, a não ser que você tenha um interesse especial por naturalismo ou geologia. Apresenta também uma quantidade variada de cardápios para andarilhos, de feijão com carne de porco à frutas desidratadas. 

Além de todas as dicas de logística para mochileiros, poeminhas improvisados durante caminhadas e todo o papo furado zen budista sobre o sentida da vida, Vagabundos Iluminados é uma jornada espiritual e física à América profunda, a América popular, povoada por todos os tipos da classe trabalhadora do mar à terra, de caminhoneiros à estivadores. É uma trilha com passagens iluminadas e outras escuras de um jovem em busca de si mesmo.

Lixo Jovem,
fevereiro de 2012